sexta-feira, 2 de outubro de 2009

DICA DE FILME: A CULPA É DO FIDEL

Na Paris de 1970, Anna de la Mesa (interpretado pela brilhante Nina Kervel-Bey), tem 9anos e é uma perfeita lady. Adora ensinar aos primos mais novos a maneira correta de saborear uma laranja com garfo e faca, ensaia a maneira correta de segurar uma taça de champagne. Seu pequeno universo é formado pelo colégio católico — habitado por várias outras pequenas damas como ela —, pela escola de natação e pela linda casa ajardinada onde mora com os pais, o irmão mais novo e a babá, uma exilada cubana. Mas toda essa harmonia é quebrada com a chegada da tia e da prima de Anna, que fugiram da Espanha após o assassinato do tio, um militante contra a ditadura de Franco. O pai, vivido por Stefano Accorsi, é um advogado espanhol que vive na França desde jovem. A morte do cunhado e a efervescência política da época (entre 1970 e 1971) levam o pai de Anna a rever seus princípios.
Ele deixa o emprego, troca a casa por um pequeno apartamento e passa a atuar como intermediário do movimento para eleger Allende presidente do Chile. A mãe, interpretada por Julie Depardieu (filha de Gerard Depardieu), deixa seu posto como jornalista da revista "burguesa Marie-Claire" para escrever um livro-reportagem em prol do direito feminino à contracepção. A babá cubana, anticomunista até o último fio de cabelo, é substituída por uma série de militantes estrangeiras, que buscam abrigo na França. Elas não têm grande jeito para o cardápio das crianças e inovam com pratos gregos e sul-americanos.
O novo apartamento vive cheio de pessoas estranhas: "os barbudos" chilenos amigos de seu pai e um monte de mulheres chorosas, que dão depoimentos para o livro que a mãe irá escrever. Além disso, a garota passa a dividir um beliche com o irmão François e é proibida de assistir às aulas de religião — condição colocada pelos pais para que ela possa permanecer no colégio católico, de onde se recusou a sair. Dividida entre a realidade conservadora da escola e a complexidade das mudanças que, acima de tudo, afastam os pais de seu dia-a-dia, Anna se rebela.
Os pais se desdobram para lhe mostrar a importância do momento histórico, ao mesmo tempo em que tentam se convencer de estarem no caminho certo. A pequena Anna desafia o tempo todo com as convicções dos militantes e com a convivência, amplia sua visão de mundo.
A Culpa é do Fidel foi adaptado do romance Tutta Colpa di Fidel, da jornalista italiana Domitilla Calamai que, assim como a diretora do filme, cresceu num lar comunista. O filme é bem-humorado, com tiradas inteligentes e engraçadíssimas, e é esplendidamente fotografado, tem ótimos diálogos, cenas densas, impactantes e divertidas, e um elenco de primeira, a começar por Nina Kervel-Bey , escolhida entre 1000 crianças. Longe de ser um panfleto a favor ou contra o comunismo, o filme nada mais é do que uma brilhante história sobre Anna aprendendo a crescer e descobrindo que o mundo não é só preto ou branco.
Mas o grande feito de Julie Gavras é retratar uma trajetória pessoal emocionante sem jamais ser piegas. A prova disso é a cena final, brilhante — que embora dura e aborrecida, a "infância comunista" tem o grande mérito de infundir em algumas de suas "vítimas" um senso de contestação para lá de bem-vindo. Julie Gavras realizou um trabalho emocionante, que toca de forma profunda seu objeto de estudo e destinação: o humano.

Sugestão retirada do blog:lisanunes.blogspot.com

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