sábado, 3 de abril de 2010

quarta-feira, 31 de março de 2010

A estrela do Sisu

artigo de Sidney Jard da Silva e Artur Zimerman


"A UFABC tem muito a avançar para se colocar entre as principais instituições do país. No entanto, o reconhecimento de que há uma longa trajetória a seguir não pode ofuscar o destaque alcançado em pouco mais de três anos de atividade"

Sidney Jard da Silva é professor do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal do ABC. Artur Zimerman é coordenador do Bacharelado em Políticas Públicas e professor do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas da UFABC. Artigo enviado pelos autores ao "JC e-mail":

Nas últimas semanas, em um balanço apressado dos resultados alcançados pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), o processo de reforma do sistema universitário brasileiro voltou à pauta dos principais meios de comunicação do país. As vicissitudes da implantação da Universidade Federal do ABC (UFABC), considerada um dos projetos mais inovadores do Governo Lula para a expansão do ensino superior, ocuparam papel de destaque neste debate.

Contudo, a discussão sobre as condições de implantação da universidade tem passado ao largo da avaliação que o corpo discente faz da instituição. O presente artigo, baseado em pesquisa realizada em setembro de 2009, com 2.599 alunos (99% dos matriculados), tem como objetivo apresentar o perfil sócio-econômico e a opinião dos estudantes da UFABC sobre a qualidade de ensino, a capacitação docente e as condições de aprendizagem na universidade.

Criada em julho de 2005, a UFABC recebeu seus primeiros estudantes em setembro de 2006, sob forte crítica de setores da mídia que questionavam a decisão de iniciar suas atividades em instalações provisórias. A maioria absoluta do corpo discente da universidade é formada por jovens entre 17 e 24 anos (87%), solteiros (94%), do sexo masculino (70%), sem filhos (97%). Os que se auto-declaram brancos representam 73% dos alunos, pardos 15%, de ascendência oriental 9%, negros 2% e indígenas 1%.

A grande maioria dos estudantes reside com seus familiares (72%) e depende do auxílio financeiro dos pais (60%); 75% apresentam renda familiar per capita de até três salários mínimos, 25% têm atividade remunerada não-acadêmica e 23% recebem bolsa-auxílio da instituição. Paulistas e paulistanos perfazem a grande maioria do corpo discente; destes, 60% residem no Grande ABC e 34% na cidade de São Paulo.

O bacharelado em Ciência e Tecnologia (BC&T), até então único curso de ingresso na universidade, é bem avaliado pela maioria dos alunos: 14% afirmam ser excelente, 55% bom e 23% regular. Após a conclusão do bacharelado interdisciplinar, 97% pretendem prosseguir seus estudos em uma das especialidades oferecidas pela UFABC. Os cursos mais procurados são: engenharia de instrumentação, automação e robótica (14%); engenharia de gestão (13%); engenharia ambiental e urbana (10%) e engenharia de materiais (9%).

Os professores são avaliados como bons por 61% dos estudantes e como excelentes por 24%. A capacitação administrativa da equipe dirigente é bem avaliada por 63% dos discentes e a capacitação dos servidores técnico-administrativos é aprovada por 73% dos alunos. A localização do campus (Santo André) e as condições para realização de pesquisa também são bem avaliadas pelo corpo discente, 69% e 61% respectivamente.

No que se refere aos pontos mais críticos para a plena instalação da UFABC, ao contrário do que tem sido divulgado por setores da imprensa, as condições de aprendizagem são consideradas regulares ou boas pela grande maioria dos discentes. A infra-estrutura é avaliada como regular por 36% dos alunos e como boa por 30%. O acervo da biblioteca é considerado regular por 34% dos estudantes e bom por 31%.

Em se tratando de uma universidade recém-criada, a UFABC tem muito a avançar em termos de infra-estrutura para se colocar entre as principais instituições do país. No entanto, o reconhecimento de que há uma longa trajetória a seguir não pode ofuscar o destaque alcançado pela instituição em pouco mais de três anos de atividade. Êxito confirmado pela significativa procura no Sisu e pela avaliação positiva dos atuais alunos no que se refere às condições de ensino oferecidas pela instituição.

No que tange ao futuro, 86% dos estudantes esperam que a UFABC os prepare para o mercado de trabalho, 67% que lhes forneça conhecimentos necessários para uma melhor compreensão do mundo e 46% desejam preparação para pesquisa científica.

Como podemos observar, são grandes as expectativas dos alunos em relação à nova universidade. Oxalá os meios de comunicação também estejam preparados para elevar o debate da expansão e da reforma do ensino superior brasileiro para além do cronograma das obras e dos calendários eleitorais.

terça-feira, 30 de março de 2010

O Brasil não é mais aquele

Lula visitou o Oriente Médio e, como era de se esperar, a imprensa brasileira estrebuchou de raiva, vomitou preconceitos e demonstrou a postura servil de sempre. E depois falam que somos sectários, que somos antiamericanos, que somos isto e aquilo. Mas o ódio que a elite brasileira nutre pelo próprio país é tão evidente que voltar a este assunto chega a ser constrangedor.
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Ao contrário do que os jornais publicaram durante a semana passada, Lula não foi ao Oriente Médio com a pretensão de solucionar o conflito secular entre árabes e judeus. Como poderia o governo brasileiro assumir responsabilidades pela paz numa região tão conturbada do mapa?
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Lula viajou a convite do presidente de Israel, Shimon Peres.
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Lula não cometeu, como o líder sionista, a indelicadeza de ir ao país dos outros para fazer política sem ser convidado. Pouco antes da visita do presidente do Irã ao Brasil, Shimon Peres desembarcou em São Paulo, onde reuniu-se primeiramente com a cúpula do PSDB, com Serra, com Alckmin et caterva. Só depois de dar as ordens aos seus subalternos é que foi a Brasília tomar um cafezinho com o presidente Lula. Atitude no mínimo deselegante, para não dizer suspeita.
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Mas, para a mídia, o grosseiro foi Lula, por não querer colocar flores no túmulo do fundador do sionismo -- doutrina judaico-nacionalista que já deu inúmeras provas ao mundo de sua veia autoritária, racista e violenta. Ou vocês já se esqueceram do massacre de civis promovido pelas tropas sionistas na Faixa de Gaza, em 2008?
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Lula não foi o único presidente que se recusou a visitar o túmulo de Theodor Herzl. Todos os líderes mundiais que não reconhecem a barbárie perpetrada pelo sionismo nos campos de concentração palestinos fizeram o mesmo. Nem por isso foram considerados deselegantes. Com sua decisão firme e soberana, Lula mostrou a Shimon Peres que ali estava o Brasil, um país de 200 milhões de habitantes e oito milhões de quilômetros quadrados. Um país que deixou de ser mero peão no tabuleiro da política internacional.
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Os Estados Unidos e a Europa já reconhecem a força do Brasil e seu gigantesco potencial. Os maiores especialistas políticos não têm dúvida de que, dentro de quatro anos, estaremos entre as cinco maiores economias do mundo. Se forem mantidos os rumos do governo atual, em cerca de vinte anos poderemos estar entre as quatro grandes potências da Terra.
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A postura autônoma do Brasil, nossa recente autodeterminação perante o Primeiro Mundo, tem irritado a imprensa brasileira. Os ditos analistas políticos, como Miriam Leitão, Alexandre Garcia, Arnaldo Jabor e patota, ganharam espaço para gritar que devíamos ser gratos por sermos quintal americano, que ainda somos o primo pobre, que não podemos ter o direito de opinar sobre temas importantes, que temos de nos colocar em nosso lugar, analfabetos que somos, coitadinho que somos... Como não falam por si próprios, mas por quem paga os seus exorbitantes salários, apenas demonstram o quão submissa continua sendo a nossa elite. Para essa gente, não interessa que o Brasil seja um país respeitado.
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A presença de Lula no Oriente Médio não teve o propósito de convencer judeus e árabes a selarem a paz. Isto seria ridículo. Lula apenas aproveitou o convite para marcar a posição brasileira em relação ao drama do povo palestino – do qual foram tirados os direitos legítimos (reconhecidos pela ONU) de ter um Estado livre e soberano. Habilmente, Lula mostrou às Nações Unidas que é possível deslocar o eixo das negociações. E, aos “donos do poder”, mostrou que romper relações com o Brasil será, num futuro próximo, muito mais prejudicial à eles do que à nós.
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Lendo o festival de besteiras que ainda espoca nos jornais acerca da viagem de Lula, não pude deixar de lembrar da deprimente cena de Celso Lafer, ministro das Relações Exteriores do governo FHC, tendo de tirar os sapatos e passar por uma constrangedora revista no aeroporto de Nova Iorque, mesmo depois de se identificar aos agentes de imigração dos EUA.
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Esta é a diferença entre o passado e o presente, entre eles e nós: passamos a ser respeitados porque nos demos o respeito. Para desespero dos subalternos, o Brasil não é mais aquele.

retirado do blog: www.botequimdobruno.blogspot.com